Cortes de verbas para universidades federais podem indicar futura privatização

Corte

O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, surpreendeu a comunidade acadêmica nessa terça-feira (30), anunciando um corte de 30% nas verbas destinadas a três universidades federais: Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade de Brasília (UNB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Sem apontar motivos concretos para os cortes, Weintraub, em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, fez ainda novas ameaças, afirmando que a “balbúrdia” pode levar a cortes em outras federais.

O que deixou a entender que a redução pode ser represália ao período eleitoral, quando justamente as três universidades fizeram protestos e atos políticos contra o então candidato e atual presidente, Jair Bolsonaro.

O professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e ex-membro do Conselho Universitário, Maurício Abdalla, aponta que os cortes em função do “ajuste fiscal” exigido pelos credores da dívida interna começaram a atingir as universidades federais desde o final do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). A situação piorou, no entanto, com o golpe que levou ao poder Michel Temer (MDB) e, agora, tende a chegar à beira do caos com o governo Bolsonaro, opositor declarado das universidades federais.

“Os cortes anteriores levaram a universidade a congelamento de bolsas e muita dificuldade para manter coisas básicas, como cortar grama, manter os prédios e ter segurança nos campi. Novos cortes podem comprometer mais ainda o funcionamento mínimo da universidade. Querem destruí-la para favorecer a iniciativa privada na educação e usar o discurso da necessidade de privatização”, alerta Abdalla.

Segundo o professor, apesar de o orçamento ser definido pelo governo, a autonomia garante que cada universidade decida o uso da verba, de acordo com aspectos acadêmicos, políticos, científicos e pedagógicos.

“Claro que, sem recurso, não se pode tomar decisões com autonomia. Isso tem levado muitos professores a buscar convênios com empresas privadas (muitas delas poluidoras e com uma dívida social enorme). O problema disso é que as empresas não investem no ensino superior ou na pesquisa independente. Elas querem retornos que as beneficiem, e os convênios acabam transformando a universidade em um laboratório terceirizado das empresas. Isso acaba com a liberdade de iniciativa, pesquisa e pensamento acadêmico, pois submete a pesquisa aos interesses financeiros e ecológicos das empresas financiadoras”, ponderou o professor.

Para ele, a comunidade acadêmica da Ufes precisa reagir. “Não podemos aceitar que um governo que combina a ganância dos capitalistas modernos com a ideologia dos medievais (ou seja, que representa só a pior parte de duas eras distintas) destrua o pensamento livre, a pesquisa, o ensino e extensão que a universidade pública tem feito. Se os professores, estudante e técnicos administrativos não reagirem, o que vai ocorrer é o sucateamento das universidades públicas e sua posterior privatização”.

Nota

Já o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o reitor da Ufes Reinaldo Centoducatte, assina uma nota, em que defende os investimentos nas universidades federais, ressaltando também que devem ser feitos sem distinções de área.

“… Cabe, pois, reagir às recentes notícias de que o Governo Federal pretende reduzir, com ‘medidas agressivas’, o financiamento para a área de humanas, nominando especificamente a filosofia e a sociologia. Ao tempo que reitera a necessidade de investimento adequado em todas as áreas do conhecimento, em conformidade com a história, a realidade e o plano de desenvolvimento de cada instituição universitária, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) associa-se às manifestações de diversas associações científicas e de outros setores da sociedade civil que ora rejeitam com firmeza o anúncio de propósitos que antes denunciam desinformação, preconceito e estreita motivação ideológica, desconhecendo a autonomia universitária, a natureza da produção científica e a necessária colaboração entre as áreas do conhecimento”, apontou a nota.

Segundo o documento, “universidades são projetos de Estado e não simplesmente desse ou daquele governo. São, portanto, projetos de longa duração, para os quais colaboram todas as áreas do saber. Da mesma forma, é da essência das universidades procurarem a colaboração entre saberes disciplinares distintos, pois a cooperação íntima entre as diversas áreas do conhecimento encontra-se entre os valores definidores que distinguem as universidades e lhes permitem dar conta dos desafios colocados pela realidade. Cercear ou agredir uma área do conhecimento equivale, assim, a amesquinhar a própria ideia de universidade e a comprometer sua finalidade institucional”.



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